Quando as temperaturas sobem, a primeira reação pode ser prolongar a rega. No kiwi, porém, o equilíbrio é mais exigente: manter a humidade sem saturar as raízes, preservar a proteção da copa e acompanhar a recuperação do fruto depois de o calor abrandar.
O que está a acontecer em 2026
Na monitorização publicada em agosto, a Zespri assinalou que a humidade limitada do solo, as temperaturas elevadas e cargas superiores estavam a aumentar a pressão sobre o calibre e a qualidade nas explorações de Itália e França acompanhadas pelo programa Zespri Global Supply.
Em Itália, o peso do fruto estava próximo de 2025, embora ligeiramente inferior — diferença provavelmente associada à recente onda de calor. Em França, encontrava-se abaixo dos dois anos anteriores, situação relacionada com a floração precoce e duas ondas de calor em junho.
São dados provisórios de acompanhamento, não resultados finais de colheita, nem um retrato de toda a produção europeia. O teor de matéria seca e o ºBrix mantinham-se próximos dos valores do ano anterior. A leitura prudente é, portanto, de maior risco sobre o calibre, não de uma perda generalizada de qualidade. Consultar a monitorização da Zespri.
Quando o crescimento abranda
Durante períodos de temperatura muito elevada, a atividade fisiológica da planta e o crescimento do fruto podem ficar temporariamente limitados.
Numa entrevista de julho, um agrónomo da Organização de Produtores Aracthos, na região grega de Arta, referiu que esperava uma nova fase de crescimento após a descida das temperaturas. É uma avaliação local, baseada na experiência daquela região, e não uma garantia aplicável a todos os pomares.
Algum murchamento ou enrolamento das folhas nas horas mais quentes também não significa, por si só, que existam danos graves. Merecem maior atenção a limitação persistente do crescimento, o amolecimento ou enrugamento dos frutos e uma queda anormalmente elevada. Ler a entrevista do AgroTypos.
Regar mais nem sempre é regar melhor
O cenário mais exigente combina calor intenso com falta de água no solo. Ainda assim, a solução não passa simplesmente por aplicar uma grande quantidade de água de uma só vez.
O objetivo é evitar oscilações bruscas: um solo que seca demasiado e recebe depois uma rega abundante. A frequência e a duração devem considerar a textura e a capacidade de retenção, o declive, a drenagem e o caudal real do sistema. Onde a retenção é maior, o excesso pode limitar o oxigénio disponível para as raízes e favorecer asfixia radicular ou problemas como Phytophthora.
Uma meta-análise de 2025, baseada em 1.038 observações de ensaios com kiwi realizados na China, encontrou reduções de produtividade tanto abaixo como acima do nível de rega considerado ótimo. O excesso de água reduziu também a eficiência do seu uso. O estudo reforça a importância do ajustamento, mas não fornece uma dose transferível diretamente para Portugal ou para uma onda de calor concreta. Consultar a meta-análise sobre rega e fertilização.
Em cada setor, vale a pena acompanhar:
- a quantidade de água efetivamente aplicada;
- a profundidade atingida pela humidade;
- a uniformidade da rega;
- zonas que permanecem saturadas;
- o estado das folhas, dos frutos e das raízes.
A pergunta útil não é apenas “durante quantas horas regámos?”, mas “quanta água chegou às raízes e como evoluiu a humidade?”. Sensores, caudalímetros e observação direta ajudam a responder, com o ajuste do técnico que acompanha cada parcela.
O calor também pode acelerar problemas anteriores
Os primeiros resultados do projeto italiano SOS-KIWI acrescentam uma nuance importante ao declínio do kiwi. Segundo a equipa, o calor extremo não deve ser tratado como causa única: pode acelerar sintomas em plantas cujas raízes já estavam fragilizadas por agentes patogénicos, compactação, pouca porosidade do solo ou outros fatores agronómicos.
Em condições muito quentes, diminui o oxigénio no solo e pode aumentar a agressividade de alguns agentes patogénicos. As observações preliminares do projeto associam solos compactos e pouco arejados a maior incidência de declínio; solos mais porosos parecem reduzir o risco. São resultados ainda em validação de campo, não uma receita universal. Ler os primeiros resultados do SOS-KIWI.
As folhas também protegem o fruto
A folhagem próxima dos frutos funciona como proteção contra a radiação solar direta. Retirá-la durante um período muito quente, ou imediatamente antes, pode expor subitamente o kiwi e aumentar o risco de escaldão.
O agrónomo ouvido em Arta recomendou preservar as folhas que sombreiam os frutos e evitar pulverizações nas horas de maior temperatura. O escaldão não era frequente nos pomares locais, mas podia surgir sobretudo em plantas jovens ou após uma poda intensa deixar o fruto repentinamente exposto.
Isto não significa suspender toda a gestão da copa. Significa ponderar o momento e a intensidade dos trabalhos quando está prevista uma subida acentuada da temperatura.
Nem todo o calibre pequeno é provocado pelo calor
O calibre resulta de vários fatores. Na colheita francesa de 2025, os volumes aumentaram cerca de 10%, mas os calibres foram globalmente inferiores e 15% a 20% dos frutos pertenceriam às classes mais pequenas.
O relatório não atribui o resultado a uma onda de calor. Relaciona a recorrência dos calibres pequenos com mudanças mais amplas — maior pluviosidade e invernos mais curtos e amenos —, além de declínio e asfixia radicular em parte dos pomares. O calor pode aumentar a pressão sobre o fruto, mas não deve explicar tudo sem analisar carga, água, solo, raízes e historial da parcela. Consultar o relatório da DRAAF Nouvelle-Aquitaine.
O kiwi cria uma “memória” do calor?
Um estudo publicado em maio encontrou sinais de memória térmica em plantas jovens de kiwi mantidas em condições controladas. As que passaram por uma sequência gradual de temperaturas elevadas recuperaram mais depressa a atividade radicular e a fotossíntese após uma exposição extrema do que as plantas submetidas diretamente ao tratamento mais severo.
É um resultado interessante para a investigação sobre tolerância e melhoramento. Mas o ensaio foi realizado em laboratório e incluiu tratamentos até 55 °C: não constitui uma recomendação para provocar stress térmico num pomar comercial. Ler o estudo sobre aclimatação térmica.
E nos vossos pomares?
Depois das últimas ondas de calor, o fruto retomou o crescimento quando as temperaturas desceram? Como estão a ajustar a rega — sensores, caudalímetros, observação do solo e da copa ou outro método? Encontraram sinais de escaldão, saturação do solo ou problemas radiculares?
Partilhem as observações da vossa região. Comparar solos, sistemas de rega e estratégias de gestão pode ajudar toda a comunidade a interpretar melhor esta campanha.
Sobre as imagens
As imagens anexas são ilustrativas e não retratam os episódios europeus de 2026. Fotografias do pomar e do fruto: Pseudopanax/Wikimedia Commons, domínio público. Figura técnica de sintomas foliares, redimensionada para publicação: Wu, Jia e Duan (2023), Agronomy 13, 2137, CC BY 4.0, observações realizadas em Nanjing, China.